Autoajuda funciona?

Muita gente questiona a eficácia da autoajuda. Confesso que o blog, muitas vezes, enfoca na mensagem de ajudarmos a nós mesmos. Porém, até onde isso funciona?

Até que ponto a autoajuda pode transformar as nossas vidas?

(Via)

O movimento da autoajuda teve seu início, oficialmente, em 1859, quando Samuel Smiles, escritor britânico, publicou o livro intitulado de Self-Help (autoajuda, em português). A obra tenta passar mensagens muito presentes no senso comum e na nossa cultura, do tipo, aprender com o fracasso, o valor do trabalho, da honestidade. À partir daí, milhares de autores se aventuraram nesse campo, disseminando ideias que procuram exaltar e aumentar a autoestima das pessoas que buscam esse tipo de material. Em 2006, com o lançamento d’O Segredo, o movimento ganhou grande atenção e trouxe à tona a questão do poder da mente para atrair aquilo que queremos. No entanto, as ideias do livro/filme não eram novas e sim baseadas em outro movimento, apelidado de Novo Pensamento. O seu principal autor é Joseph Murphy, escritor de mais de 30 livros de autoajuda, que ensinam técnicas e métodos de atingir Deus ou a “mente cósmica” do universo para a realização dos nossos desejos.

A grande questão é: será que tudo isso funciona?

A minha experiência pessoal e o meu interesse pela autoajuda se iniciou quando assisti pela primeira vez O Segredo – material fantástico de motivação e bem estar. Isso é inquestionável, todavia, a sua eficácia deve ser colocada em dúvida. Como eu sempre tive uma “pitada” de ceticismo, decidi colocar em prática os ensinamentos passados. De fato, consegui melhoras na minha vida financeira e na área dos relacionamentos. No início não tinha certeza se as visualizações fariam efeito, mas com o tempo notei o poder que isso gerava na minha vida. Talvez o documentário tenha aflorado uma consciência inexistente até então, de que eu era responsável pelas coisas que passava na minha vida. Isso me trouxe ânimo e vontade de mudança. Quando nós mudamos passamos a ver o mundo de outra forma e, com isso, a nossa vida inteira é transformada. Não trata-se de uma filosofia de vida, mas sim de como as nossas crenças e o nosso psiquismo têm  o poder de modificar aquilo que experienciamos.

Por outro lado precisamos tomar cuidado com ideias de que somos invencíveis e ilimitados. Se levarmos isso de maneira literal as condições serão catastróficas na nossa vida, pois passar por frustrações é inerente à experiência humana e ao depararmo-nos com essa sensação de onipotência temos a tendência de idealizar uma vida perfeita – passamos a exigir muito de nós mesmos. Resultado: infelicidade. De qualquer maneira o suposto poder da nossa mente deve vir acompanhado de muito estudo e autoconhecimento, para não interpretarmos erroneamente os pensamentos da autoajuda.

Grande parte dos livros de autoajuda refletem pensamentos comuns e já presentes na sociedade. Todos nós sabemos que “errar é humano” e que “não devemos desistir dos nossos sonhos”. Com base nisso os autores e escritores dessa linha, geralmente, não trazem nenhuma grande novidade e nem promovem grandes transformações na nossa vida. Nessas idas e vindas, alguns se atrevem ainda a colocar aquilo que ensinam acima de todas as coisas. Geralmente, costumam aconselhar as pessoas a largarem tudo, dinheiro, família e trabalho para que a “graça divina” aconteça em suas vidas. Ou ainda dizem: “você não precisa cuidar do seu corpo e não deve mais tomar qualquer remédio, pois é um ser ilimitado”. Mas ora, saber que o nosso corpo pode nos curar e nos regenerar não exclui os cuidados que devemos ter. Não é por saber que um bom sistema imune reage bem à infecções que você não deve se alimentar bem e se cuidar na hora de fazer sexo, usando camisinha.

Quantas vezes eu já afirmei aqui que milagres não existem? Repito isso para que as pessoas não se iludam com falsas promessas e com charlatães que propõem uma mudança de vida “da noite para o dia”. Lidar com a nossa mente não é nada fácil e é nesse ponto que as mudanças demoram mais a ocorrer, pois existem ganhos secundários, naquilo que pensamos que somos. Será que você está disposto a abandonar tudo isso? Pense bem. Bem disse a escritora Clarice Lispector, em uma carta à sua irmã, 1947: “Cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Outro erro de interpretação está no fato de algumas pessoas acreditarem que vivemos em “ilhas isoladas”, independentes da sociedade, história e cultura que pertencemos. Ninguém vive assim. Fazemos parte da construção das crenças sociais e querendo ou não interiorizamos ideologias coletivas e dominantes. Uma pessoa que se diz autossuficiente, a ponto de descartar as pessoas ao seu redor, provavelmente nunca parou para observar o quão influenciável fomos e somos na nossa vida, o quanto dependemos da civilização para que a ordem seja mantida.

Em um dos livros de Joseph Murphy ele chega a afirmar que a pobreza financeira é uma espécie de doença mental. Fiquei espantado ao ver até que ponto um padrão de normalidade financeiro pode determinar a maneira como a nossa mente funciona. Embora muita das ideias do autor sejam fantásticas e práticas, defender esse tipo de pensamento e crença só gera preconceitos e não contribui em nada para construirmos um mundo melhor e mais digno.

Não podemos também confundir autoajuda com psicologia. Grande parte dos psicólogos que conheço são materialistas e seguem a linha da ciência tradicional. Boa parte dos profissionais dessa área ficam indignados e revoltados com pensamentos espiritualistas. Penso que não há nada de errado nisso. Já imaginou se em uma sessão terapêutica fossem discutidas ideias religiosas? Terapia não é misticismo. Tentar trazer religião e astrologia pra esse meio só gera descrédito às ciências psicológicas.

Reconheço que temos de elaborar também o nosso preconceito contra a espiritualidade e assuntos que não correspondem à maneira materialista de pensar. É claro que vários escritores, formados em psicologia, dão uma contribuição incrível para que a nossa sociedade se transforme. E o que mais me impressiona é que são exatamente aqueles que não se deixaram levar pela crença de que a matéria explica a matéria.

Enquanto estivermos trabalhando para a transformação do mundo é aceitável que ideias novas e espiritualistas sejam disseminadas, desde de que cada um atue na sua área correspondente, sem fazer misturas mirabolantes de teorias místicas e psicológicas. Devemos sim trabalhar em conjunto, considerando o valor de cada pensamento e crença na nossa sociedade.

Reconhecer que somos responsáveis por 100% daquilo que passamos é fantástico, mas temos que ter o discernimento necessário para não confundir poder mental com vaidade e liberdade absoluta.

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